... por mares nunca dantes navegados...
Se pensarmos como A. Green (cit. Decobert e Sacco) que "a natureza profunda dos afectos é um acontecimento psíquico ligado a um movimento à espera de uma forma", então o desenho (ou a forma), traz-nos hipóteses interpretativas sobre o nível simbólico e sobre o conteúdo deste simbolismo.
Isto porque a forma e representação são elementos distintos, e uma vez encontrada a forma poderemos dissociar afecto e representação.
Consideremos o exemplo do sonho: o sonho é constituído por representações que se revelam em imagens. Mas, ao acordarmos, apenas há memória destas imagens e o sonho, tão real momentos antes, parece-nos agora uma encenação de imagens. Na verdade, estas são tiradas do pensamento inconsciente que se apresenta desta forma à consciência.
Relativamente ao material da figuração (a imagem), trata-se de um elemento do domínio da consciência, fazendo parte de uma consciência difusa, no caso das obras aqui apresentadas, são claramente investidas de significado.
O barco, a nível fantasmático, transporta-nos numa viagem (ao desconhecido). A passagem do mundo seguro, individual, interno, para os “mares nunca dantes navegados”, de perigos, mas onde é possível encontrar o Outro. O barco mais não é do que a arca protectora que transporta o sujeito nesta viagem do Eu em busca do Outro... em última instância na construção do self.
Na pintura figurativa, encontramos sempre o gosto do imaginário, o do sonho e das fantasias, o gosto da criação. No fundo, a necessidade de ser reconhecido e amado pelos outros, que participam quase sempre na figuração.
No caso do "nosso" autor, o Outro está ausente enquanto figura. Mas, curiosamente (ou não), encontram-se mensagens como expressão do desejo de pertença ao mundo externo.
Neste sentido, a pintura puramente abstracta é sempre uma frustração enquanto reveladora da relação. Não significa, porém, que na abstracção o autor faça uma retirada de afectos. O que se encontra ausente são os substitutos do processo plástico. E quando surge o encontro entre o plástico e o representado, estamos perante uma obra de valioso significado.
Ana Cabral Fina
(Psicóloga Clínica)

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