«Por, de entre...uma janela»
“Por de entre” uma janela é possível delimitar uma massa aloplástica de luz, absolutamente transformadora, ou melhor ( e existe aqui uma importante diferença ), surpreendentemente reveladora. Em geral, é com uma surpresa muda que os pintores que aqui laboram recebem esta dádiva diária, em luz, que em diferentes horas do dia nos brinda com cambiâncias e intensidades.
Este foi um ano de oficina consagrado, bipolarmente, à linguagem pictórica inteligível e às exclusividades do Barroco, às particularmente interessantes, os dramas, as narrativas, a realidade sensível, as “nuances”, enfim as intensidades.
Procuremos então substanciar estes conceitos no produto de autor:
- Alexandre Ferreira; Ceia em Emaús, segundo Caravaggio – O Alexandre começa por me contar que no canal 2 tinha sido transmitido um documentário sobre Michelangelo Merisi, o de Caravaggio - ... nem vais acreditar, sabes o que é que deu na televisão?!!... O Caravaggio pá...o Caravaggio vê tu lá, e eu vi logo, não foi preciso dizerem-me...e de seguida indaga-me sobre a tela que havia construído no dia anterior, a saber pela medida vertical de 50 cm por 65 cm de comprimento. Na sequência natural da conversa arrebatou da sua secretária o esboço de estudo executado em conformidade com a Ceia em Emaús ( executada originalmente em 1601, óleo sobre tela no formato 141 x 196,2 cm, hoje espólio da National Gallery em Londres ) e após a execução de uma grelha preparatória para ajuste da composição ( no novo enquadramento ) inicia o esboço da figura central. Os primeiros traços, num negro óxido empastado e húmido anunciam a narração em processo mimético em muito semelhante à imagem que lhe servia de referente.
O Caravaggio não desenhava...nunca desenhava.
O Alexandre, pelo contrário, concentra toda a sua energia no desenho, nesta linguagem naturalmente intrínseca ao gesto e à projecção.
Ao fim de duas horas temos o a estrutura essencial do quadro completamente nomeada. Nomeada porque o desenho define o “dentro”, o “fora” o próximo e o distante, relativizando os conteúdos no plano e porfim e através do olhar, na nossa percepção.
- Geada, passa-me aí o óleo branco s.f.f.
O meio tom, cor de média intensidade, saturada e portanto opaca, já é do conhecimento de todos, que começaram por a utilizar em exercícios de aproximação livre aos materiais plásticos, na aplicação de primários e de bases.
O Alexandre conhece também ( tão bem ) os seus benefícios e efeitos, e enquanto aplica, numa pincelada firme e convicta, a espessa pasta de branco titânio aglutinado em óleo de linhaça, a revelação acontece. Um novo tipo de elaboração – o claro / escuro.
A meio, na oficina, no limite da incursão soalheira que trespassa uma das nossas janelas, está também a Helena que se levanta para procurar o azul ultramarino, um azul profundo, tão profundo e denso como o próprio mistério criativo.
Ela está a produzir a sua terceira versão da Mulher do Chapéu Vermelho, este delicioso e emblemático retrato ( Johannes Vermeer, óleo sobre painel de madeira, 22,8 x 18 cm, 1665 actualmente na National Gallery of Art em Washington ) que vincou de maneira tão expressiva as escolhas temáticas dos nossos autores. A Helena é uma excelente observadora e o artifício do claro – escuro rapidamente, nela, se transforma em artefacto. O azul forte que ela trazia de uma mesa justaposta ao Alexandre transportava também consigo a possibilidade de um azul claro, de uma rosa nápoles suave, de um amarelo espessamente diluído em branco de zinco ...e enfim de novas estratégias para narrar visualmente aquele que é o seu mundo, mas que afinal e no fundo é também o nosso, este, o de sombras e luzes em que vivemos em comunhão.
Por, de, entre uma janela podemos finalmente observar o reflexo revelado dessa luz primordial, a obra acabada em íntimas dualidades...e o seu autor unificado.

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