Viver com os Pintores
- Bom dia, Bandida (vulgo Maria).
- Bom dia, Bandidos…
A carrinha já está estacionada no pátio interior da residência afecta à Oficina.
Está lola, está nita. Bom dia nina, está boa?
A equipa da Oficina entra assim pelo trilho calcado, por alguns, já há mais de cinco anos. O espaço físico é-nos familiar, pois é este o lugar do primeiro lar residencial e centro de actividades ocupacionais da AFID – Associação Nacional de Famílias para a Integração da Pessoa Deficiente.
Há três anos, porém, o espaço sofreu uma alteração na sua estrutura mais básica e fundamental – a da identidade.
- Professor, eu quero ser o melhor pintor do mundo.
- Esta pintura está um espectáculo.
- E a minha também…
Antes que os primeiros sinais (visíveis) desta transformação se revelassem, estava lançado o toque lapidar para uma nova abertura, para uma outra liberdade, para aquela espiritualidade em que todos, iguais em condição e natureza, quase nos mistificamos na figura do Demiurgo (quase, porque nos interessam mais as consecuções no plano do real)…
Para criar o Homem, necessita somente de matéria. Na Oficina somou-se o que faltava em matéria/material e determinou-se que a esta ambição não seriam colocados outros entraves senão o de que a Pessoa estaria sempre acima da obra e nunca a obra acima da Pessoa.
- Professor, eu quero trabalhar para ter a minha cassete da “rosinha”. É para dançar o cú duro…
- Nhe… a exposição?
- Sim, quando é que vamos pôr os quadros no Algarve?
A arquitectura do espaço é simples, tal qual qualquer outro espaço de recolhimento e reflexão, que possamos imaginar. Porém, a sua geografia, aquela outra, a do imaginário e das intenções, possui a mais rica das cartografias.
O mundo sonhado, ao alcance do nosso gesto.
- Deixem passar o piloco (vulgo piloto)!!!
- Não tens medo de voar?
- Oh pá… eu não tenho medo nenhum…
Nem o Luís, nem o Nuno, nem a Maria, nem a Ana ou, porventura o Pedro, sequer a Lena, o Zé, o Mário… ou enfim qualquer um destes autores.
A “Oficina” é assim o espaço de desmistificação, e a criatividade o instrumento de superação… Um cavalo de Tróia reinventado e equipado para as nossas vitórias simbólicas.

[